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Se Deus quiser

Paulo Roberto

                 

   Era uma data especial na pequena vila, e como de costume, os dias do calendário eram iguais para Francisco, que saiu de madrugada para a lida diária. Trabalho braçal era o seu ofício, desses em que o homem deixa a caneta e se apega ao aço, e aquele dia era tão comum quanto à cena viva de profunda miséria em sua humilde casa de mutirão. Cinco filhos para sustentar e a mulher, na iminência de dar à luz a mais uma vida, eram nomes comuns, perdidos no mundo moderno em que se encontravam.

                        Quando retornou para casa, ao entardecer, trazia as mãos calejadas de segurar firme o terçado, às vezes precisava da foice ou da enxada conforme o estado físico de cada terreno que empreitava para limpeza. Mas era um homem firme na fé. Sempre dizia que se Deus quisesse ele sairia daquela situação.

                        Sua mesa não era posta de alimentos de cardápio comercial. Não tinha opção. Às vezes levava batata taioba para comer, e das folhas preparava sopa; noutras, mangas, que as crianças disputavam com as moscas, ou alguns peixes miúdos do igarapé, cujas águas, de tão limpas, refletiam a imagem de um homem com sede de mudança, de vitória, que nela mergulhava e refrigerava a mente. Nem a panela vazia tirava-lhe a esperança e a fé de um dia vê-la repleta de alimento saudável para os filhos, porque se honestidade contasse, já começariam ganhando como pessoas honestas e trabalhadoras, vindas do interior, das matas e dos seringais, e se estavam na vila, é porque seus sonhos cresciam como aquele lugar promissor. Francisco jamais deixou de agradecer a Deus pela vida que tinha, pelos momentos difíceis por que passava.

                        Nos finais de semana faziam carvão de madeiras de refugo de uma serraria da localidade, e procuravam ossos ou úberes de vaca para arriscar outra qualidade no caldo com chicória. Também catavam latas para vender. Eram muitas, dezenas espalhadas pelas ruas, líquido despejado goela adentro de algum corpo sedento de vício, amantes noturnos, pessoas do crime, da vida fácil. O tempo passava assim, e a família crescia, sem dignidade, vendo a esperança ameaçada. 

                        Certo dia Francisco saiu à procura de um emprego na vila, mas precisava estudar. Antes de informar-se sobre a matrícula, entrou na igreja e fez sua oração, até pediu que lhe deixassem escrito seu pedido: Senhor, Tu sabes do nosso sofrimento e da nossa dor, ajuda-nos a sair desta situação, porque somos honestos e precisamos sobreviver. Não se conteve, porém, ao ver um mendigo aos trapos, em situação pior que a sua, clamando por comida e abrigo, dividido entre o trânsito e as chacotas dos meninos de rua. Num mergulho vagaroso ao fundo do bolso, com passos lentos de homem exausto e triste, deu-lhe a única moeda que compraria pão para a família. Desolado, voltou para casa.   

                        Não conseguiu matricular-se porque não dispunha de documentação pessoal. Seu registro ainda estava sob processo judicial na capital. Era longe e não sabia como buscar informações. Ao chegar em casa, a mulher o esperava aflita, dizendo que a energia elétrica havia sido interrompida por falta de pagamento e o filho menor estava febril. Francisco levou a criança ao único posto de saúde, mas como a situação era delicada, recomendaram-no ir para a capital. Procurou o administrador para receber auxílio, mas apenas desculpas de que os recursos específicos para casos daquela natureza não se encontravam disponíveis. Seu filho ardia em febre, tomado por infecção. Sem condições de transportar a criança, disse ajoelhado, com as mãos erguidas para o céu: Senhor, por que não mudas a minha situação? O que preciso fazer para alcançar tua misericórdia? E continuou andando a passos largos, sem direção.Avistou o pobre pedinte, e foi ter com ele uma conversa. O mendigo disse que Francisco era bom coração e Deus estava do seu lado. Tenha fé. Francisco agradeceu a força e saiu em direção, naquele mesmo momento, à igreja. Conseguiu auxílio e levou o pequeno para a capital.

                        Quando o filho sarou, Francisco voltou para casa. Ao chegar na vila, viu inúmeras pessoas e comentários mil a respeito do mais novo ganhador da loteria, porém desconhecido. Francisco não sabia ler nem escrever. Não conhecia números e os letreiros indicativos das placas de ônibus, que muitas vezes perdeu e amargou longas horas de espera porque lhe faltava leitura, e tinha vergonha de perguntar àquela gente sisuda.

                        Muitas vezes calculava o tempo olhando para o sol, como nos seringais que trabalhou, porque não conhecia os digitais dos relógios modernos. Rumou para casa e avistou um vulto imóvel que o assustou. Quase desistiu de continuar os passos, pois as pernas tremiam, mas sabia que não tinha energia em casa e o lugar estava cada vez mais perigoso. Muitas famílias tinham vindo do interior e não conseguiam emprego. Muitos filhos deixaram o seio familiar para perambular pelas ruas e encontravam soluções fartas no mundo do crime. Era difícil reconhecer aquele vulto em meio à escuridão, e acelerou, porque queria dizer para todos que a criança estava bem e aguardava alta e condições para voltar para casa. 

                        Ao abrir o portão, desvendou o mistério, ao ouvir aquela voz rouca de quem o cumprimentara e o incentivara. Era o mendigo, mas não aquele mendigo. Um homem elegante, de terno e gravata, de pasta na mão, perfumado, com motorista. O homem disse: Meu amigo Francisco, quando você me deu aquela moeda eu tive duas opões: comprar comida ou arriscar a sorte. Preferi a segunda. Não é que acertei o bilhete premiado? Ninguém me valorizava, ninguém me conhecia, porque eu era apenas um pobre mendigo, sem sorte na vida até encontrar você, que me reconheceu como humano. Agora todos querem saber quem sou para vir a mim, pedir, como mendigos. Todos têm curiosidade para vir a mim como Judas. Amigos de verdade, entretanto, são pessoas como você, que compartilham, agradecem, não se esquecem de Deus e da esperança que não esfria. Vim aqui lhe doar a metade do que tenho. Francisco agradeceu a oferta milionária e os dois se abraçaram. Estavam ricos. O homem saiu em direção ao carro, deixando apenas no ar o doce aroma, como os bons ventos que agora sopravam na realidade de Francisco, o sonho alcançado pela sua fé. Francisco saiu com a família pelas ruas da vila e ninguém os notara, salvo os que o ajudaram e foram ajudados também. Eram mais um contingente de pobres trafegando sem direção, rumo ao desconhecido.

                        Muitas vezes achamos que ajudar o próximo é tirar-lhe a iniciativa, a liberdade, mas muitas portas continuarão fechadas mesmo com as batidas leves da oportunidade. Tantas pessoas em nossa cidade, no Brasil e no mundo, preferem jogar toneladas de alimento ao lixo diariamente a doar para os necessitados. Outras queimam ou simplesmente guardam roupas, sapatos e pertences seminovos porque impedem a continuidade da moda e de suas superstições. Trocam de mobílias, carros, fazem empréstimos altos sem necessidade, viajam em férias para paraísos às custas do contribuinte. Quantas pessoas lamentam e choram a sorte, quando o recurso é pouco, outras maldizem o sistema e os pais, que apesar das dificuldades esperam ver nos filhos bons e futuros profissionais, e para isso espicham o corpo no sol e na chuva para ganhar sustento. É preciso agir. A vida é um projeto que o tempo reserva a cada um, e se gasta com ações. Tudo o que da vida se levam são os frutos cujas sementes plantamos aqui na terra, e sementes plantadas com amor se transformam em árvores frutíferas e frondosas, e de seu alimento o homem necessita para crescer na fé e na perpetuação da palavra Divina.

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Publicação:2007-03-03
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